Dogão

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O Dogão (segunda vez que eu dou esse nome pra um cachorro) foi encontrado em péssimo estado nas ruas, com buracos de bicheira pelo corpo. Na época eu não tinha como acolhe-lo aqui em casa mas consegui com uma amiga uma vaga num hotelzinho canino e comecei a cuidar do velhinho. Com a ajuda das Drs. Ana Paula e Juliana, do pessoal do Tomba Latas (ONG que sempre faço questão de ajudar) e da responsável pelo hotel, logo o Dogão estava saudável novamente. E aí veio a parte mais difícil: conseguir um adotante para um cachorro grande e velho.

O Pet Show estava fazendo uma feirinha de adoção de cachorros de rua, em parceria com o Tomba-Latas e eu meio que me ofereci pra levar o Dogão pra participar da feira. Por causa de seu tamanho, a única maneira de fazer a coisa funcionar foi colocando um cercadinho bem no meio da loja e sentando lá dentro do cercado com ele, pra acalma-lo. Sim, tive que ouvir muitas vezes piadinhas sem graça como "Os dois estão pra adoção?" e "Olha a carinha de abandonado desse aí (apontando pra mim)!". O que a gente não aguenta por esses bichos...

Depois de algum tempo apareceu uma pessoa bacana e disse "Que cachorro lindo!", apontando pro Dogão! Minha resposta: "Ele estava te esperando!". Ela explicou que não podia levá-lo pois era de Santa Catarina, só estava em Curitiba visitando e não tinha como transporta-lo. Eu, obviamente, não pensei duas vezes antes de me oferecer pra levar o Dogão até aonde ela morava... e assim (depois de uma viagem tortuosa na qual o Dogão latiu sem parar por 4 horas - ele ODEIA andar de carro) o nosso amigo chegava à sua nova moradia, em Palhoça-SC. 

Eu também fiz a promessa de um dia visita-lo pra ver como ele estava e fazer uma sessão de fotos com sua nova família. E cumpri. Fui muito bem recebido com um strogonoff de camarão delicioso e muitas estórias sobre o dia-a-dia do nosso amigo. Descobri, por exemplo, que na hora de comprar comida é ele mesmo quem vai no aviário da cidade (aonde é muito bem recebido pelo dono) e escolhe a ração que quer comer.

O Dogão já está velhinho... a idade está pesando... problema na vesícula... fazendo tratamento com polivitamínico pra ganhar peso... mas ele é hoje um cachorro muito feliz. Faz parte de uma família que o ama muito, brinca com outros cachorros, vai sempre passear na praia (numa pequena vila de pescadores) e tomar banho de mar. Adora banana. Tem vizinhos que também se preocupam com o bem-estar animal (um deles acabou de resgatar um cavalo que estava morrendo desnutrido). E continua odiando andar de carro... velho com suas manias. 

Depois de muitas estórias, risadas, carinhos e a pança cheia, chegou a hora de ir embora. E aí o Dogão resolveu surpreender à todos: foi eu me despedir e abrir a porta do carro pra ele entrar em disparada e sentar no banco da frente, rosnando pra quem tentasse tira-lo de lá. Pois é... logo ele, que odeia carros. Nessa hora eu tive certeza que ele lembrava e era grato por tudo que passou comigo aqui em Curitiba. Foi difícil tirar o desgraçado lá de dentro.. não era só ele que não deixava: a minha vontade também não. A última imagem, enquanto eu ligava o carro, é dele latindo desesperadamente pra mim, sabendo que eu estava indo embora. Véio mimado. Dirigi uma quadra ou duas e não aguentei... parei o carro no acostamento pra chorar um pouco. Alguns minutos depois enxuguei as lágrimas, coloquei um sorriso  à lá "missão cumprida" no rosto, e vambóra pro próximo resgate que ainda tem muito bicho aí nas ruas precisando de ajuda.

Pra curtir as fotos "com força", dá um play na trilha sonora abaixo...