sergiobuss_lembrancasdeumdiabom_leandro_nego-11.jpg

Leandro e Nego

Rodovia Regis Bittencourt.

Assim que saí de São Paulo, indo em direção à Curitiba, eu paro em um posto de gasolina pra abastecer. Saio do carro, um cachorro abana o rabo e vem em minha direção. Atrás do cachorro, um cara vem andando, meio resmungando, meio falando sozinho. Ele para do meu lado e diz: " Você acredita que uma mulher acabou de oferecer dez reais pelo meu cachorro? Isso é um absurdo... amigo não se vende!".

Conversamos um pouco, me despedi, fui no banheiro, comprei uma besteira pra comer, abasteci e peguei a estrada de novo. Reencontrei os dois já a mais ou menos 1Km do posto, andando no acostamento. Parei o carro, abri a janela e perguntei: "Pra onde vcs estão indo?". Ele respondeu: "Pra Foz do Iguaçu.". Eu falo, meio dando risada e duvidando: "Ah, claro... e vcs pretendem ir assim? À pé?". Rolou um silêncio constrangedor. Vi que a coisa era séria e ofereci carona. O Leandro agradeceu e negou, dizendo que pra aceitar teria que deixar o cachorro na estrada e isso ele não faria. Eu respondi que a carona era para os dois. "Moço, vai sujar o seu carro inteiro!". Eu disse que não havia problema algum... ele bateu na própria roupa pra tirar o pó... deu uma sacudida nos pelos do Nego e entrou no carro com o cachorro no colo.

Pra minha sorte eu tinha ido pra Sampa à trabalho e por isso estava com a minha camera à mão. Resolvi documentar essa amizade bonita dos dois. 

Começa a tocar BB King no som do carro. O Leandro diz "Pô, aumenta aí... adoro Blues!". Pro meu espanto (puro PRE-conceito) ele começa a cantar junto com a música, afinado e com um inglês quase sempre correto. Ele começa  a me contar a sua estória... tinha acabado de sair da prisão... foi preso por duplo homicídio mas liberado depois de alguns anos, por ter conseguido provar legítima defesa. Aparentemente a sua esposa e o amante haviam organizado uma tocaia para mata-lo assim que chegasse em casa. Com os anos na prisão ele acabou perdendo a casa e o contato com os amigos e família. Resolveu então andar e ver o mundo.

A estória era triste mas enquanto ele ia me contando, continuava sorrindo e brincando com o Nego. "A família me largou, os amigos me largaram... mas esse aqui não me larga por nada. E eu não largo dele!".

Mostrou os calos nos pés. Disse que uma mulher havia dado pra ele uma bota daquelas que se usa em construção. "Quem é que consegue caminhar na estrada com uma bota daquelas e sem meia??? Estragou o meu pé inteiro!". Contou que depois acabou ganhando umas havaianas de um caminhoneiro, mas resolveu guardar as botas para a época de inverno.

Conversamos sobre política, sociedade, acontecimentos gerais no Brasil e no mundo. Tenho vergonha em assumir que em muitos dos tópicos ele estava muito mais bem informado do que eu. 

Paramos pra comer. Ele pede um PF... come metade e a outra metade ele coloca no chão pro Nego comer. E não foi algo do tipo 'ele comeu toda a carne e deixou arroz branco pro cachorro'. Ele separou tudo igualzinho pros dois, sem nem perceber que eu estava chocado com o que via. Aí ele me contou que o Nego é quem sempre se dá bem... que em todas as cidades que eles passam,acabam parando numa clinica veterinária, pedem ajuda e o Nego ganha anti-pulgas, vermífugo, ração... 

Foram os 350Kms mais divertidos da minha vida. Aprendi. Documentei o máximo que consegui durante as paradas. O que você vê nas fotos é genuíno... os abraços são de verdade, os sorrisos, o carinho e o cuidado também.

Depois de falar muito e comer, ambos dormiram.

Quase chegando em Curitiba, perguntei se ele queria ajuda pra 'sair daquela vida'. Ele riu, agradeceu e respondeu que ama a vida que tem. Falei então que eu deixaria eles no início da estrada que levaria até Foz mas que antes precisava parar em casa. Catei uma mochila gigante que tinha usado no ano anterior pra viajar pela Europa e enchi com calças, camisas, camisetas, meias, cuecas, toalhas, cobertor... tudo que tinha qualidade mas eu não usava muito. Dei também uma coleira nova pro Nego e coloquei um dinheiro escondido num dos bolsos da mochila. Entreguei pra ele.. ele me olhou sem acreditar no que estava acontecendo, me abraçou e desabou à chorar. Fiquei fedendo cachaça por uns 3 dias por conta daquele abraço (hahaha) mas valeu muito ver aquela dupla indo embora com um pouquinho de conforto. A última foto mostra os dois, felizes, mochila nova nas costas, prontos pra pegar a estrada. 

Se alguém, algum dia, reconhecer esses dois andando por aí... pede pro Leandro entrar em contato. Queria muito saber novidades.